Fadiga por Compaixão: a síndrome que está esgotando os veterinários brasileiros 

Novo conceito vai muito além do Burnout

Quem não está inserido no universo da medicina veterinária costuma romantizar a profissão. Acredita que trata-se de “cuidar de bichinhos”, algo tranquilo, fofo e até mesmo relaxante. Essas pessoas não sabem que a realidade é completamente diferente: ser médico veterinário envolve lidar com sofrimento, com a morte e com decisões difíceis diariamente. 

É esse verdadeiro cenário que provoca algo ainda pouco debatido, mas que vem ganhando espaço no meio acadêmico e em novos estudos. Algo que vai além do conceito de Burnout. Estamos falando da Síndrome de Fadiga por Compaixão. 

Se você quer entender mais sobre o tema, identificar se sua equipe tem sofrido com isso e procurar por possíveis soluções e formas de lidar, continue lendo esse texto. 

O que é Fadiga por Compaixão?

A Fadiga por Compaixão é constantemente comparada com o Burnout, por isso, é importante esclarecermos exatamente o que esses dois conceitos significam. 

A Síndrome de Burnout é uma condição psíquica causada pelo desgaste institucional ou organizacional. Está relacionada com estresse crônico no trabalho, que se dá, normalmente, por excesso de demandas, prazos, pressão e gestão.  

Já a Fadiga por Compaixão é a síndrome específica de quem lida com o sofrimento do outro. No caso de médicos veterinários, estamos falando do sofrimento dos animais e dos responsáveis. Essa condição envolve exaustão física e emocional, distanciamento da equipe, da família e de amigos, perda de energia e pode evoluir para casos de depressão. 

E sabe o que é mais grave nesse cenário? Médicos veterinários estão sujeitos a desenvolverem as duas síndromes, já que lidam tanto com questões institucionais quanto com o desgaste emocional intrínseco à profissão. 

Dados que comprovam o tamanho do problema 

Uma tese recente de doutorado, feita no Brasil, identificou que os profissionais da medicina veterinária com maiores taxas de síndrome de burnout, fadiga por compaixão e ideação suicida são majoritariamente mulheres, jovens e sem especialização.

Ainda no Brasil, a Revista CFMV mostra que 84% dos médicos-veterinários relatam se sentir ansiosos, deprimidos ou irritados, e que apesar de 90% acreditarem que a terapia ajudaria, 68% não fazem psicoterapia. 

Mas essa condição não se resume apenas aos profissionais brasileiros. Nos Estados Unidos, um estudo do CDC mostra que a fadiga por compaixão aparece como um dos fatores centrais associados ao maior risco de suicídio entre veterinários. 

Agora que conhecemos o conceito e a dimensão do problema, é preciso identificar o que está por trás dessas síndromes. 

Causas específicas da Fadiga por Compaixão 

Como dito anteriormente, a Fadiga por Compaixão está ligada ao contato constante com o sofrimento, diferente do Burnout, que está mais relacionado com problemas administrativos e institucionais. 

Sendo assim, quais são os principais desafios da rotina veterinária que aceleram quadros de Fadiga por Compaixão? Confira abaixo: 

  • Frequência de eutanásias, perda de pacientes e de comunicação de más notícias aos responsáveis.
  • Contato recorrente com casos de maus-tratos e animais em sofrimento.
  • Envolvimento emocional intenso exigido pela profissão. 
  • Interação constante com clientes/responsáveis emocionalmente abalados.
  • A “humanização” do pet pelo mercado, que eleva a cobrança emocional sobre o profissional (responsável que trata o animal como filho).
  • Correria constante, falta de tempo de recuperação emocional entre um atendimento delicado e outro.

Esses fatos, apesar de difíceis, fazem parte da profissão e, infelizmente, não podem ser deixados de lado. Mas existem outros fatores que influenciam essas síndromes e que podem, sim, ser evitados. 

O que está por trás de tudo? 

No bloco anterior, identificamos as causas da Fadiga por Compaixão. Causas essas que são amplamente conhecidas e que fazem parte da profissão. A partir delas é possível pensar em diversas maneiras de lidar com a situação, mas é justamente aí que mora o problema. 

A seguir, elencamos os quatro principais aspectos que freiam os profissionais da medicina veterinária na hora de lidar com essa questão: 

  1. Cultura de silêncio e perfeccionismo na profissão: ambas as práticas, tão comuns no nicho veterinário, dificultam pedir ajuda mesmo quando reconhecida a necessidade.
  2. Barreiras de acesso à terapia: o custo e o tempo possuem grande impacto aqui, mesmo havendo consciência da importância.
  3. Escassez de estudos brasileiros aprofundados: atualmente, o que temos sobre Fadiga por Compaixão entre os dados nacionais ainda vem de relatos e teses pontuais, não de pesquisas amplas.
  4. Falta de protocolos institucionais: prática que poderia ser adotada pelas clínicas e hospitais veterinários para apoiar emocionalmente a equipe após atendimentos de alto impacto (eutanásias, óbitos, casos graves). 

Se esses são fatores de impedimento, quais medidas podem ser tomadas para contrapor os aspectos acima? É isso que vamos saber agora. 

Como lidar com a situação? 

As soluções, nesse caso, devem ser pensadas em camadas. Existem medidas possíveis para serem aplicadas em quatro diferentes instâncias: 

Âmbito individual: buscar apoio psicológico especializado, além de reconhecer os sinais precoces, que envolvem distanciamento, irritabilidade e perda de entusiasmo.

Âmbito de equipe/liderança: criar um protocolo após atendimentos emocionalmente pesados (ex.: pausa breve, conversa com a equipe). Também é possível pensar em medidas de revezamento para quem atende os casos mais desgastantes e redistribuir tarefas administrativas para não sobrecarregar quem já lida com o desgaste emocional do atendimento. 

Âmbito da gestão: usar ferramentas que reduzam a carga sobre a equipe clínica (triagem automatizada de mensagens fora do horário, CRM organizando o fluxo de atendimento), para que o tempo do profissional seja preservado para o que realmente exige presença emocional.

Âmbito do setor: mais pesquisa brasileira dedicada especificamente à fadiga por compaixão (não só burnout) e formação sobre o tema já na graduação.

A sua saúde e a saúde da sua equipe também importam 

A principal lição sobre esse assunto é simples: questões emocionais e de desgaste ligadas aos profissionais da medicina veterinária são reais e não devem ser normalizadas. 

Falar sobre isso já é um passo importante, mas reconhecer o problema não é suficiente sozinho. Boa parte dessas mudanças depende de decisões estruturais, que cabem à liderança e à gestão da clínica. É nesse ponto que contar com apoio externo pode fazer diferença.  

A EvolueVet, maior agência de marketing veterinário do Brasil, entende as dores do setor e possui soluções para ajudar você no âmbito da gestão. Entre em contato para saber mais. 

Por último, não se esqueça: cuidar de quem está sofrendo tem um preço. Esse preço tem um nome: Fadiga por Compaixão. Se esse texto tocou em algo que você reconhece na sua rotina, vale lembrar: buscar ajuda também é uma forma de cuidado. O CVV está disponível 24h, pelo 188 ou pelo site www.cvv.org.br

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